Brasil gasta R$ 225,6 bilhões por ano em logística
RIO DE JANEIRO - O Custo Logístico do Brasil está estimado em R$ 225,6 bilhões, valor referente aos gastos com transporte doméstico, estoque, armazenagem e custos administrativos. A soma equivale a 12,8% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro, percentual superior aos 8,2% verificados nos Estados Unidos. Os dados foram publicados pelo Centro de Estudos em Logística da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) em seu Panorama Logístico 2006. A diferença entre os gastos dos dois países reside principalmente no transporte e no estoque, motivados pelas diferentes realidades de infra-estrutura e ambiente econômico. Os gastos com o transporte da produção brasileira são de R$ 135,5 bilhões por ano, o que representa 7,7% do PIB. Nos Estados Unidos, a relação com o PIB não passa de 5%. A diferença está em parte associada à precariedade da infra-estrutura brasileira. Segundo levantamento da Confederação Nacional de Transportes (CNT), 60 mil quilômetros da malha rodoviária brasileira, dos 82 mil quilômetros pesquisados, estão em estado regular, ruim ou péssimo. Também por causa de gargalos, os trens circulam pelas ferrovias com velocidade média de 25 quilômetros por hora (km/h), enquanto nos EUA a velocidade média atinge 80 km/h.
Há dificuldades também nos portos brasileiros, em que graves problemas de infra-estrutura de acesso terrestre e marítimo atrasam a operação de navios e a entrada dos produtos. O presidente do Conselho de Infra-estrutura da Confederação Nacional da Indústria (CNI), José de Freitas Mascarenhas, afirma que a infra-estrutura de transportes precisa receber anualmente investimentos de R$ 9,2 bilhões, nos próximos 20 anos, para resolver parte dos gargalos. "A logística afeta substancialmente o preço dos produtos e sua competitividade no mercado externo", afirma Mascarenhas.
Pelo levantamento da CNI, atualizado este ano, seriam necessários investimentos de R$ 4,5 bilhões em rodovias, R$ 3 bilhões em ferrovias, R$ 1,2 bilhão em portos e R$ 500 milhões em hidrovias para dotar o País de uma infra-estrutura logística melhor. A entidade afirma que o Governo brasileiro tem recursos para solucionar a questão, mas que falta capacidade administrativa. "A CNI considera a questão da infra-estrutura de transportes como um dos problemas básicos da economia brasileira. O Brasil tem parte desses recursos para investir e poderia atrair a iniciativa privada com Parcerias Público-Privadas (PPPs)", diz.
Precariedade - De acordo com o professor do Instituto Coppead de Administração da UFRJ, Maurício Pimenta Lima, o elevado Custo Logístico brasileiro também está relacionado, além da precariedade da infra-estrutura existente, ao desbalanceamento dos modais na matriz de transporte. A concentração da movimentação de cargas no modal rodoviário - que responde por 58,5% da carga transportada - no lugar de modais mais baratos, como ferroviário ou marítimo, eleva os gastos do País com transporte. Segundo levantamento do centro acadêmico, as ferrovias respondem por 13,5% da movimentação e a navegação, por 13,5%.
Ele explica que o custo do transporte de uma tonelada por mil quilômetros no modal rodoviário é de US$ 97, enquanto nos modais ferroviário é de US$ 16,57 e no aquaviário é de US$ 28,23. "Se o Brasil tivesse uma matriz de transporte semelhante à dos Estados Unidos, em que os modais ferroviário e marítimo detêm maior participação, seria possível reduzir em 25% os gastos com transporte. Isso significaria uma economia de R$ 33,92 bilhões por ano. O Brasil poderia ter matriz semelhante em longo prazo, mas isso demandaria investimentos pesados para comportar aumento substancial da capacidade desses modais", conta.
Outro fator apontado por especialistas que afeta diretamente a logística brasileira é o custo de estoque, estimado em R$ 69 bilhões, 3,9% do PIB. Este é o valor que as empresas têm em mercadorias e matérias-primas armazenadas antes de sua comercialização, ao longo do período de um ano. Nos Estados Unidos, o custo do estoque responde por 2,1% do PIB. A diferença entre os dois países está na taxa básica de juros, que influencia o custo de oportunidade de manter capital imobilizado. Quanto mais alta a taxa de juros, mais oportunidades são perdidas pelas empresas em outras possibilidades de investimento, inclusive no mercado financeiro.
Um dos setores mais punidos pelo alto custo logístico brasileiro é o de produtos de baixo valor agregado, como commodities agrícola e mineral. Estimativas apontam que a rede de armazenamento e transporte destes setores movimenta anualmente cerca de 500 milhões de toneladas em produtos como minério de ferro, soja em grãos, café bruto e açúcar bruto. Estes produtos foram responsáveis por US$ 17,539 bilhões das exportações no ano passado, o equivalente a 14,83% das exportações totais brasileiras, de acordo com dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior.
Custo elevado - Segundo o vice-presidente da Caramuru Alimentos, César Borges de Souza, a logística representa de 15% a 20% do preço final da tonelada de soja em grãos da empresa, maior processadora de capital nacional. Considerando valor final de US$ 200 por tonelada de soja, com origem no Leste do Mato Grosso e destino no Porto de Santos (SP), gasta-se portanto entre US$ 30 e US$ 40 por tonelada. A representação do custo logístico na operação da Caramuru pode parecer a princípio alta, mas a empresa é uma das operadoras mais eficientes no transporte de seus produtos, utilizando-se de ferrovias e hidrovias, modais mais baratos.
Os gastos maiores das companhias que lidam com commodities não significam, no entanto, que a operação seja absolutamente eficiente. Estudo da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) aponta que as perdas anuais na cadeia produtiva de commodities como milho, trigo, soja, arroz e feijão chegam a US$ 1,34 bilhão, dos quais cerca de US$ 1 bilhão no transporte e armazenagem. O segmento de commodities, por conta disso, é um dos que mais investem em logística no País.
Provedores de serviços são braço auxiliar - Com pouca perspectiva de investimentos públicos, as empresas brasileiras buscam formas de contornar a deficitária infra-estrutura brasileira para disputar um mercado inundado de produtos altamente competitivos produzidos nas indústrias asiáticas. Nesta linha, proliferaram no Brasil, nos últimos 10 anos, os chamados provedores de serviços logísticos (PSLs), empresas especializadas em soluções logísticas. Elas transcendem o conceito de transporte e participam em sua maioria das decisões dos clientes e são responsáveis pelo gerenciamento da cadeia de suprimentos e distribuição das mercadorias.
Multinacionais como DHL Express, Federal Express (Fedex), Gefco, Maersk Logistics, McLane, Penske e TNT Logistics embarcaram no processo de profissionalização da gestão logística das indústrias brasileiras e iniciaram operações no País, em busca de novos clientes ou para cumprir contratos globais. Segundo dados da Coppead, 118 PSLs estavam instalados no Brasil ao final de 2004. O faturamento anual do setor cresceu, desta forma, de R$ 1 bilhão em 1997 para R$ 16,4 bilhões ao final de 2004. Neste ano, o mercado crescerá mais 8%, segundo estimativas do presidente da Ryder Logistica, Antonio Wrobleski Filho.
"Esse crescimento esperado será o dobro das projeções para o PIB brasileiro, de 4% em 2006. O mercado logístico deverá manter este mesmo desempenho pelos próximos três anos. Um dos motivos será a elevada demanda por aumento de competitividade dos produtos nacionais frente aos asiáticos. Outro fator será o espaço ainda existente para desenvolver o setor: enquanto 25% das empresas em países como Estados Unidos e Japão têm um departamento de logística, no Brasil este número não ultrapassa 2%", explica o executivo, que comanda a subsidiária brasileira de uma das maiores operadoras de logística do mundo.
Segundo Wrobleski Filho, o crescimento deste mercado acontecerá também pelo alto custo logístico dentro das empresas. Ele explica que na área de alta tecnologia a logística representa 15% dos custos no Brasil, enquanto no mundo corresponde em média a 9%. No segmento automotivo, corresponde a 10%, enquanto a média internacional gira em 8%. "Embora não pareça, esta diferença pode ser muito significativa num ambiente de competição acirrada, como verificado atualmente nas empresas", explica Wrobleski Filho, que aponta como motivos a infra-estrutura precária, juros altos e falta de linha de crédito para o setor.
Para o presidente da Associação Brasileira de Logística (Aslog), Adalberto Panzan, a profissionalização e a especialização da gestão logística são justamente as questões em pauta no Brasil, tanto quanto a necessidade investimentos em infra-estrutura ou distribuição mais adequada dos modais na matriz de transportes. Ele lembra que, apesar dessas carências no setor, a logística brasileira funciona, mesmo que limitando o potencial das exportações. Panzan afirma, por outro lado, que a entrada de grandes multinacionais prestadoras de serviços logísticos não será suficiente para profissionalizar a gestão logística no País.
"As empresas de fora trouxeram o know-how, mas não trouxeram os motoristas e os operadores. Elas trouxeram apenas o diretor. O volume de serviço em logística chegou a tal ponto que as empresas não têm dado conta de formar profissionais na velocidade exigida pela demanda dos serviços. Independentemente, portanto, dos esforços do governo, empresas precisam investir em capacidade de gestão", explica o presidente da Aslog, entidade que tem mil associados entre indústria, comércio e serviços na América Latina. "Não existe alternativa melhor à precária infra-estrutura do que aperfeiçoar a operação."
Fonte: Jornal do Commercio 1/8/2006