Sindicarga perde mais antigo executivo do setor de transporte de cargas
SÃO PAULO - O transporte rodoviário de cargas perdeu no domingo (6) o mais antigo executivo de uma entidade patronal. Morreu Luis Leite dos Santos, que dedicou 59 anos de trabalho ao Sindicarga (transportadores de cargas do Rio de Janeiro), primeira entidade sindical do setor no país. O velório começa às 9 horas desta segunda-feira, na Capela Santa Isabel do Cemitério de Inhaúma, e o enterro será realizado às 16 horas.
Natural de Garanhuns (PE), Luis iniciou suas atividades no sindicato aos 17 anos, e desde então fez inúmeras amizades no setor de transporte rodoviários de cargas, desde trabalhadores a presidentes de entidades de várias regiões do país. Veja abaixo um depoimento da executiva da Fetranscarga, Maryland Moraes, com quem trabalhou muito tempo.
"Não é preciso dizer que lamento, que o TRC do Rio de Janeiro lamenta esta perda, a agora ausência física do nosso companheiro LUÍS LEITE DOS SANTOS. Estamos de luto, mas certos de que ele está em paz. Aliás, como sempre esteve.
O nosso pernambucano de Garanhuns – ele se ria quando lembrado de que o presidente da República é oriundo daquelas terras – era pessoa calma, no mais das vezes. Alterava-se, sim – já se viu nordestino de boa cepa não se alterar jamais? –, se lhe dessem uma boa razão. Aí se arretava e defendia a causa em questão sem dó nem piedade. A “causa”, em geral, dizia respeito ao SINDICARGA, é claro. Mais do que ao Vasco, time do coração.
Na carteira profissional, despachante. No dia-a-dia, faz-tudo. Eu já o conheci assim, desde que também passei a fazer parte do SINDICARGA. Com ele, passei horas conversando sobre a história da entidade, hoje com 73 anos de existência. LUÍS se foi aos 76 anos (faria 77 em 21 de novembro, esse ilustre escorpião) e, desde os 17, participava da vida do Sindicato: 59 anos de vida ativa na primeira entidade patronal do TRC no Brasil!
Mas conversas se perdem. Passei a gravar nossos bate-papos. A partir desses ensaios, juntando narrativas essenciais de tantos outros representantes da boa e velha guarda do TRC/RJ – Denisar Arneiro, Haroldo Rebuzzi, Noel Freire, Newton Soares, Baldomero Taques Filho, Toninho da Dardo, Antonio Cupello, Valentim Fernandes, Arnaldo Gomes, Carlos Silva e muitos outros, a quem peço desculpas por não citá-los ou este desabafo não se conclui –, foi composto o primeiro registro da história da entidade no site do SINDICARGA, então comandada pelo meu querido presidente (da FETRANSCARGA) e amigo Eduardo Rebuzzi, presente aqui, nestas palavras.
Foi ele, LUÍS, quem fomentou minha curiosidade e me deu caminho e exemplo. Exemplo porque, fosse qual fosse o discurso dele sobre o SINDICARGA, era sempre um discurso apaixonado, vibrante. Tudo que dissesse respeito ao SINDICARGA era absoluta e prontamente defendido. Afora a família, o SINDICARGA era a vida do LUÍS.
Era particularmente bom, gente boa no mais estrito sentido do termo. Os sintomas eram claros: se falava na família, os olhinhos dele brilhavam, brilhavam mesmo: “Dona Iolanda, uma mulher e tanto, cuida de mim que só vendo, como sempre cuidou dos nossos filhos!”; “Tenho um orgulho enorme dos meus filhos!”; “Meus netos? Todos, sem distinção, são muito especiais!”...
E, como toda pessoa boa de verdade, não pensava só em si ou na própria família. Os companheiros do SINDICARGA mereciam sua especial atenção: a Neidinha – Dra. Neide Mota da Silva, advogada, a outra funcionária mais antiga do SINDICARGA depois do LUÍS LEITE, hoje já não mais em atividade na casa –; a Maria José; a Teresinha; o Itamar; a Mary, gente. Todos nós contamos com ele, e ele sempre se fez presente.
Esse carinho, essa atenção, essa boa vontade com todos – há muitos transeuntes que passaram pela vida dele sem terem feito jus às qualidades que ele demonstrava – certamente lhe valeram menor sofrimento na passagem inevitável que o fato de existir acarreta. E era exatamente esse o tom da oração dos familiares e amigos quando LUÍS foi acometido por um AVC, quarta-feira última.
Quando eu precisava resolver qualquer problema do SINDICARGA – com urgência, muita urgência, ele dizia: “fica tranqüila, garota (gentil: para ele, uvas verdes ou uvas-passas eram “garotas”), isso vai ser resolvido em tempo”. LUÍS, vou ficar tranqüila, porque tenho certeza da sua tranqüilidade no plano espiritual que você sempre cultivou. E que assim seja."
Fonte: Redação NTC 7/8/2006